Nego Prego (RS)
Nego Prego faixa por faixa, confira a entrevista.
Prego faixa por faixa...
Por: Carol Anchieta ( dearcarol@adversus.com.br )

Já te aconteceu de ouvir a entrevista de um cantor sobre o seu disco e parecer que ele não fazia idéia do que as letras das músicas diziam? Bom, muitos são somente intérpretes, aí não tem como saber mesmo... Eu já tive essa impressão várias vezes, inclusive no rap, quando ouço rimas sobre o sistema, a pobreza, ou até sobre a balada, as minas... E ao tentar conversar com o “autor”, ele nem sabe o que é esse tal de sistema e sequer os motivos da pobreza do mundo.

Então eu imaginava como seria se fosse aplicado em cada um desses mc’s “cheios de opinião”, uma espécie de teste, para explicar todas as letras. E foi o que eu tentei fazer com o Prego, que lança no próxima sexta feira dia 5 de Setembro capital seu primeiro disco solo: “Máfia dos meninos”.
Depois de quase 3 horas de conversa, uma delas caminhando na Bom Jesus (bairro onde ele cresceu), posso dizer que prego foi aprovado com distinção. E digo que não é preciso gostar do som deste MC, mas ouvi-lo com certeza é importante. E se por um acaso puder conversar pessoalmente com ele, não perca a oportunidade, ele sempre tem algo a dizer. Prego é curioso, sedendo e desejoso não pela popularidade do palco, mas pelo conhecimento, por ser culto e poder passar isso adiante. Em um papo cheio de nostalgia, onde falamos de todo disco, conheça Prego “Faixa por faixa”...
O Bar do Caio a rua A no bairro Bom Jesus é onde começamos a entrevista. Caio viu Prego criança, e foi uma das primeiras pessoas que este MC viu ir para as festas de rap. E este bar hoje o principal espaço do rap dentro da Bom Jesus, onde acontecem vários shows pequenos, mas bastante representativos ali dentro.

Prego desde criança ouvia samba, a mãe e o avô são da velha guarda da escola de samba Praiana, então sempre teve em casa a referência da cultura negra. O rap entrou na sua vida quando passou freqüentar as festas. A primeira, levado por um amigo maior de idade, quando ainda Prego tinha 11 ou 12 anos, foi no Sindicato dos Metalúrgicos, o Metal (onde a maioria começou na verdade). Isso ainda na época em que tirava-se os sapatos para ser revistado na entrada, em 1991 ou 1992.
O desejo de cantar nasceu em 1997 quando saiu o disco do grupo Racionais Mc’s , o “Sobrevivendo no inferno”, que Prego ganhou de presente de uma tia. E o que o motivou foi uma das suas melhores características: a curiosidade. A curiosidade de saber por que neste disco tinha uma faixa só com instrumental?!
Então resolveu perguntar... E numa das subidas do grupo Rap Boys (antigo grupo do Lascado, hoje do grupo Estado Terminal) até o Show Clube Protásio Alves, Prego descobriu para que servem as instrumentais, ou seja, para rimar em cima delas. Então foi no já extinto Movimento Zona Leste, criado no próprio Show Clube, prego cantou pela primeira vez num palco com o grupo Black Dance.
Em seguida participou do grupo Conexão Black, que durou 5 anos. Depois formou o “Resistência” junto com os Mc’s Solo e Gibbs, antes deste último entrar para o Da Guedes, quando ainda era do grupo Reserva Sinistra.
O Resistência tinha como diferencial um discurso mais político, onde Prego falou até sobre “revolução armada”, mas depois viu que a realidade não era essa, por que para esse tipo de revolução, aqui no Brasil, ele teria que virar bandido e não revolucionário.
Depois de um tempo esse mesmo grupo virou o Bonja S.A, mas aí somente ele e o Gibbs, onde produziram o EP “O que será do amanhã?”.
Depois de um tempo fora do rap, veio a vontade de fazer um disco solo, então nasceu o “Máfia dos meninos”.
A partir de agora neste texto, entende-se por que lá no segundo parágrafo prometi apresentar o Prego “Faixa por faixa”, pois ele comenta cada uma delas:
INTRO – “Na Picadilha”
“Uma gíria que se remete, um impulso para qualquer pessoa que todo tipo de coisa, portanto, é com essa dedicação que ele vem na “picadilha”. Para quem ouvir o disco entender o sentido dele...”
II – “Bonja City”
“Ela mostra a Bom Jesus, por outro ângulo. Hoje é natural escutar um disco de rap, onde o cara fala da periculosidade do bairro, então eu quis mudar isso. Por que a gene só tem que lembrar o pior? Os jornais estão mostrando terror na Bom Jesus, toque de recolher, e tá cheio de criança da rua e não tem toque de recolher nenhum... Isso funciona pra vender jornal. E Bonja City, por que pra mim até eu ter 16 anos, era a cidade que eu conhecia.”

III- Gangueiros
“É o cara de gangue. São os conhecidos que andam junto, desde a antiga. Eu conto a história de um cara que é envolvido em gangue. E fiz em primeira pessoa para mostrar a realidade, de quando eu fui de gangue.”
IV – Grenal
“Eu sou de torcida organizada, da Máfia Tricolor, uma das primeiras torcidas a expurgada do Grêmio por atos de violência, mas isso quando a gente tinha 16 anos e arranjava briga na ida e na volta do estádio”. Por isso convidei o Cris que era da torcida Inter. Eu me considero um cara fanático, agora não sou tão atuante, mas essa é umas das músicas mais reais da minha vida. Hoje eu já não concordo mais com isso, na questão da violência, por que na verdade não tem um vencedor, a gente briga lá e volta pra casa.”
V – Responsa
“Eu não preciso ser o rei do rap, eu só preciso ser homem. Desde 31 de dezembro de 1997 e eu tenho responsa, não uso mais droga por eu fui parar no hospital. Eu disse uma coisa e não fiz essa coisa. Eu acho que os caras (do rap) não são cobrados, tem que ter alguém que cobre, e às vezes da pior forma eles tem que ser cobrados para aprender. Ter postura, e não só no rap mas na vida também.”
VI – O último reduto dos Leões
“Pensar em balada eu nunca pensei, não fazia esse tipo de música. Mas quando eu resolvi fazer um disco solo eu vi que eu ia ter que entrar na jogada. Mas eu não queria fazer paródia, e sim a minha cara e ter um ritmo mais balançado. Aí eu convidei o Bijú, o Profetta e o Baby Boy e fizemos um som mais de malandro.
VII – Em Silêncio
“É tudo o que eu guardo em silêncio. Eu falo dos caras que vem meter uma pilha de que tem que quer assim ou assado, eu sou natural...
VIII – A nascente
“É a origem da Máfia dos meninos. Eu pus as crianças cantando uma música de pular corda por que parece que toda menina já cantou aquilo, e tem uns caras falando que eu gravei sem eles saberem para ficar espontâneo eles falavam justamente sobre esse assunto.”
IX - A Máfia dos meninos
“Eu cotei em primeira pessoa a história de várias pessoas, que tem que ser várias coisas para não decepcionar os amigos. E esse nome é o título de um capítulo de um livro do Carlos Amorim, o “A história secreta do crime organizado”, e acho que ele definiu o livro ali, onde contava sobre a história de um menino que teve eu trabalhar na máfia, e eu pus esse nome traduz o que é Bom Jesus hoje. Quem mais cedo que trabalha é os moleque, em tudo, a máfia dos meninos não é só os caras pobre, é de todo moleque que por algum motivo teve que ir pra rua buscar. Por isso que pus um moleque com uma forquilha na capa, por que hoje eles não fazem mais isso e era isso que elas deveriam estar fazendo”
X – Poetas do Drama
“É a resposta para quem critica os caras do rap só escrevem sobre drama, para mostrar que eu escrevo assim por que é isso que eu vejo.”
XI – Velhos ditados
“É uma música da época do grupo Conexão, mas ela muito atual, que fala do cotidiano das pessoas que votam na direita e vivem com esgoto a céu aberto, em fim, sobre coisas velhas que ainda acontecem.”
XII – Poder Paralelo
Eu botei na minha linguagem o que eu li no livro que deu nome a máfia dos meninos. Que onde falha o sistema nascem as máfias: onde tinha lei seca os gangstas vendiam uísque, onde é proibida a droga os caras traficam. Eu quis contar essa história”
XIII – Memórias Póstumas
“É a história de um morto, como se fosse Chico Xavier contando. Eu sou um cara religioso, sou da Umbanda, e acredito que existe um outro plano depois daqui, e a finalidade dessa música é tentar mostrar o que o cara sente na hora que desencarna. E que todas as bobagens que ele fez o premiaram com a morte.”
Adversus: Para encerrar, como tu tem visto a cena aqui hoje?
Prego: Ta parado por que tem muito “pé de chumbo” que entra no rap e não contribui p si. Claro que tem que rolar dinheiro, mas os caras são muito selvagem. Tem cara que chega e diz: “Ô Prego, toca pra mim lá na moral (sem cachê), e ele sai com um saco cheio de dinheiro, igualzinho o papai Noel. Tem uma desvalorização de nós mesmos. Os caras tem que buscar o melhor, querer o melhor, se eu moro num buraco eu não tenho que enfeitar o buraco mas melhorar o buraco. Hoje tem quem te dê espaço, mas tem que melhorar a qualidade.”
Adversus: E o que temos de bom na cena aqui?
Prego: É a vontade dos caras de fazer o rap ainda, a insistência, a gente não ganha nada ainda e insiste em fazer rap.Todo mundo do rap trabalha. Quem não tralha? Se tiver eu não conheço.
Adversus: Uma frase, um recado, um salve, o espaço é teu:
Prego: Obrigado às pessoas que gostam do som que eu faço, que acreditam no rap e incentivem ele. Uma frase: “A história não registra os covardes” (refrão da faixa Responsa), do livro A Arte da Guerra (SUN-TZU; SUN-PIN. A arte da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2002 ).
Obs: Para Prego “Todo MC é obrigado a ler! Para falar sobe uma coisa é preciso saber o inverso daquilo, o rap não pode ser só uma rima, tem que ter um fundamento mesmo falando de balada, sexo e mulher.” - Então segue aqui uma listinha com leituras sugeridas por ele:
1. AMORIM, Carlos. Comando vermelho : A historia secreta do crime organizado. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1994
2. Autobiografia de Malcolm X (com a colaboração de Alex Haley), Editora Record
3. FERRÉZ, Capão Pecado, ed. Objetiva.
4. WALLACE, Edgar. A irmandade do crime. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979. REVISTA SUPER INERESSANTE (PARA ONHECIMENTOMS GERAIS)
5. RUIZ GARCIA, Enrique. Zapata, terra e liberdade. 1. ed. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1976.
6. Revista Super Interessante - http://super.abril.com.br
Contatos Nego Prego:
http://myspace.com/negoprego
mocambors@hotmail.com
fone: 51- 8424 63 79
Fotos: Carol Anchieta/Adversus